
E a história começa assim:
Era uma vez uma menina perdida num bosque, seu objetivo era desbravar o mundo e por vezes despir de suas aredomas, de suas cascas e fundos. Ela nem sabia o que buscava, mas procurava por algo por entre as folhas e frutos, por entre a terra e as formigas, por entra galhos e árvore. A liberdade lhe conduzia a alma e os desejos lhe guiavam a vida, a investigação. Numa de suas andanças, a menina encontrou alguém preso no bosque, sentado de cabeça baixa, cavando a terra com o pé. A criatura parecia de outro mundo olhando daquele ângulo, sua cor era diferente, suas formas. A menina olha para seu corpo e algo de diferente a distinguia daquele sentado a sua frente. Ela se aproxima e diz: - Olá menino! E ele responde: - Olá! Bom dia! Como vai vossa senhoria? O diálogo se inicia e a menina começa o seus por quês: - O que você esta fazendo aqui? Você é de onde? Vem de outro mundo? Você está triste? Perdido? Ou perdeu alguém? Por que sua pele é diferente? Você tem pele? A menina pergunta sem parar, nem sequer dá tempo para que o menino possa ao menos pensar sobre tantas perguntas. Ele lhes conta sobre sua vida, sobre sua família, sobre seu trabalho e de como fazia para sobreviver diante de sua incessante cobrança de sustentar ser o homem de alumínio, explicando em que consistia esse material do qual era feito diz: - sou feito de metal branco prateado, sou leve, mole, dúctil, resistente à corrosão e com inúmeras aplicações. E acrescenta:
- Eu não to suportando mais.
- O que você não suporta?, questiona a menina
- Não suporto a carga de energia negativa a sustentar todo dia, ter de fazer coisas que não me dão prazer o tempo todo [...] eu sou a cabeça da família eu não posso me emocionar, preciso ser o frio, calculista, sem sentimentos [...] EU QUERO QUE O ANO TERMINE!!!.
A menina ouve tudo atentamente e por alguns minutos sua incessante necessidade de perguntas cessa, ela pensa e olha pro céu, para as folhas que caem das árvores e fecha os olhos para ouvir os pássaros que cantam. Meche em sua bolsa retira algum objeto e olha nos olhos do homem-menino alumínio e lhes diz:
- Eu gostaria que o ano pudesse começar agora, que eu pudesse ter te encontrado no começo de minha jornada nesse bosque, assim poderíamos desfrutar de algumas coisas que vi, dos riachos, das borboletas, dos sons, do cheiro da terra e talvez você entendesse. É, talvez você entendesse do que é capaz um coração. Eu olho em seus olhos e não posso entender, como podem dizer isso de você: frio e calculista?, mas só digo do que posso dizer e do que meus olhos me permitem ver. É preciso coragem pra chorar, mas também é preciso o mesmo para não fazê-lo. Eu queria poder te falar das fadas e dos monstros que encontrei, dos meus anjos e demônios, mas deixá-los sair para passear seria um perigo, alguns dirão. Talvez seja mais perigoso deixar tudo dentro da lata que você carrega no peito. Talvez [...]
A menina mostra seu abridor de lata e pergunta: - Eu poderia ver seu coração?, enquanto seus olhos resplandeciam em lágrimas. Não se sabe o que o menino escolheu, alguns dizem que ele caiu em lágrimas, outros que de seus olhos nenhuma gota caiu. Talvez as lágrimas não tenham jorrado, pois não se sabe se o menino sabia chorar.
27 de Outubro de 2010
Rebeka Gomes






